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O problema silencioso da originação em FIDCs: quando a carteira pertence mais ao agente comercial do que à instituição

  • Foto do escritor: Ziffer Expertise Comercial
    Ziffer Expertise Comercial
  • 19 de mai.
  • 3 min de leitura

Uma das maiores dificuldades enfrentadas por FIDCs, securitizadoras e operações de crédito estruturado no Brasil não está necessariamente na captação de recursos, na análise de crédito ou mesmo na concorrência do mercado.

Em muitos casos, o verdadeiro gargalo está na originação comercial. Mais especificamente: na dificuldade de construir uma estrutura comercial sustentável, organizada e institucionalizada.

No mercado de antecipação de recebíveis, é extremamente comum que a prospecção seja realizada por agentes comerciais externos sem vínculo empregatício formal. São profissionais que desenvolvem relacionamento regional, aproximam potenciais cedentes e atuam como ponte entre empresas e instituições financeiras.

O problema não está necessariamente nesse modelo.

A dificuldade surge quando a instituição financeira passa a depender excessivamente da carteira pessoal desses profissionais.

Existe um comportamento relativamente recorrente no segmento. Como a prospecção ativa exige disciplina, constância, organização e maturação de longo prazo, muitos agentes acabam se apoiando nos mesmos cedentes já conhecidos do mercado, mantendo relacionamento com empresas que circulam simultaneamente entre múltiplos fundos e securitizadoras.

Na prática, determinados cedentes se tornam “figurinhas marcadas” do mercado.

São empresas constantemente abordadas por diferentes instituições financeiras, enquanto o desenvolvimento de novas contas — que exigiria esforço consistente de prospecção — acaba ficando em segundo plano.

Isso cria uma vulnerabilidade operacional importante.

Quando o relacionamento fica concentrado exclusivamente na figura do agente comercial, sem histórico estruturado, sem registro organizado das interações e sem continuidade institucional, a carteira passa a pertencer mais ao profissional do que à própria operação financeira.

As consequências normalmente aparecem no médio prazo:

  • baixa previsibilidade comercial;

  • dependência excessiva de relacionamento individual;

  • dificuldade de expansão sustentável;

  • perda de histórico;

  • e risco de ruptura quando determinado agente deixa de atuar com a instituição.

Em muitos casos, quando o profissional sai, parte relevante da originação acompanha esse movimento.

A empresa percebe então que possuía clientes do comercial — e não clientes da operação.

Outro desafio importante do segmento é a dificuldade de formar novos profissionais.

O mercado de crédito estruturado possui particularidades relevantes:

  • leitura de risco;

  • entendimento financeiro;

  • análise documental;

  • dinâmica operacional;

  • e capacidade de conduzir relacionamento consultivo.

Por isso, formar profissionais “do zero” exige acompanhamento, processo e estrutura.

Sem organização comercial, esse desenvolvimento se torna extremamente difícil.

É justamente nesse ponto que muitas instituições passam a enxergar CRM, playbooks, scripts, cadências e metodologia comercial apenas como ferramentas de produtividade.

Mas o papel dessas estruturas é muito maior.

Uma operação comercial organizada institucionaliza conhecimento, reduz dependência individual, padroniza comportamento e cria continuidade operacional.

Quando a empresa possui processos definidos, histórico centralizado e conhecimento documentado, o relacionamento deixa de depender exclusivamente da memória e da carteira pessoal de cada agente.

O conhecimento passa a pertencer à instituição.

Nesse contexto, o CRM assume papel estratégico.

Mais do que organizar contatos, ele centraliza histórico, estrutura follow-ups, registra interações, organiza agendas e cria inteligência comercial institucional.

Especialmente nos prospects — que ainda não se tornaram clientes — isso é fundamental.

Porque quando o histórico fica registrado:

  • o relacionamento passa a ser da instituição;

  • e não apenas do agente que realizou o primeiro contato.

Isso gera continuidade, previsibilidade, segurança operacional e capacidade de crescimento sustentável.

Muitos FIDCs e securitizadoras conseguem crescer inicialmente sustentados por relacionamento, networking e indicações. Mas operações que desejam crescer de forma previsível, pulverizar carteira e reduzir dependência individual inevitavelmente precisam institucionalizar sua estrutura comercial.

Isso não significa abandonar relacionamento.

Significa transformar relacionamento em processo.

E as operações que conseguem fazer essa transição normalmente constroem estruturas muito mais sólidas, previsíveis e sustentáveis no longo prazo.

Porque no fim, em operações financeiras complexas, crescimento não depende apenas de capital disponível.

Depende da capacidade da instituição transformar conhecimento comercial em ativo organizacional.

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